29 de janeiro de 2009

Monologar III

Carta da “outra” a “uma delas”

É difícil aceitar que lutas por mim, que acreditas em mim tal e qual como sou… Com os meus defeitos, com o meu carácter hipocritamente forte. É difícil aceitar que procuras em mim algo que eu não acredito que tenho e/ou sou…O que me fazes pensar todos os dias… o que me fazes sentir a cada minuto… é angustiante, estafante, exigente, desconcertante! Dói… dói demais abdicar de tudo aquilo que me custou tanto construir… e não! Não se trata somente das minhas máscaras, das minhas cicatrizes, dos meus medos, das minhas culpas mas essencialmente nisto tudo que acreditei durante tanto tempo serem exactamente aquilo que sou!
Todos os dias me apetece desistir. É mais fácil manter uma estrutura que todos já conhecem e reconhecem… é mais fácil actuar assim…
Por acaso já te passou pela cabeça como será se todos perceberem aquilo que de facto sou? É pavoroso, porque na realidade nem eu mesma entendo. Sabes qual é a sensação de destapar uma cicatriz horrorosa e mostrar aos outros? E a mim mesma? Ver algo tão feio gravado na minha pele? Não, não sabes… não entendes!
E se ao mostrar, te vais embora? Se fores apenas mais uma que se encantou e depois desistiu? Como tantas outras que tentam e tentam e acabam por se ir embora… desistem…
Não! Não me queiras tirar deste lugar onde tudo é seguro, onde me divirto, onde encontro pessoas iguais a mim, que se limitam a mostrar aquilo que querem… exactamente aquilo que eu quero ver! Não quero que me contem mais… que me mostrem mais… Prefiro unicamente que se divirtam com as minhas piadas tontas, com o meu sorriso fácil, com a beleza estúpida que criei para eles… Sim, agrada-me!
Para perceberes o estado em que me deixaste, juro que, neste momento, te oiço dizer: “Não são os outros que desistem. És tu. És tu que te sentes culpada por não seres perfeita como eles parecem ser… e preferes manter esse teu lado entusiasta da vida, onde tudo é dramaticamente bonito. Onde te deixas conduzir pela beleza que os outros fazem e têm do mundo!”
Compreendes agora o quão difícil é para mim? Apetece-me o teu abraço. Apetece-me que me perdoes por tantas coisas… Apetece-me chorar no teu colo, no teu regaço… apetece-me o teu silêncio… a tua respiração… nada mais que isto!
Sabes qual é a ironia disto tudo? Neste exacto momento estou a ser tudo aquilo que detesto que os outros sejam. Fracos. Tristes. Enfadonhos. Chatos. Deprimidos. Chorões. E se isto me irrita! Oh se me irrita!
Um dia destes, quando sentir e estiver preparada para todos estes sentimentos emergirem podes ficar perto de mim?

Sem comentários:

Direitos de Autor

Todo o conteúdo que não seja da minha autoria será identificado e encaminhado para o site de onde foi retirado. No caso do autor se sentir lesado, por favor, envie-me um email e o conteúdo será eliminado do meu blog.