27 de fevereiro de 2009

Cheiro de Vinho IV

Segredo a Jerónimo: Leva-me a sentir o vento do teu galopar… Deixa-me ser livre na tua liberdade.
Jerónimo é o meu cavalo. Um cavalo branco com uma mancha preta na barriga. Crina longa e olhos de um preto profundo. Nesse dia, a liberdade de Jerónimo levou-me ao reencontro de alguém …


*

Évora.

Sinto o vento quente de uma madrugada que promete um dia escaldante. As pequenas colinas de uma planície imensa e dourada não faziam prever aquela pequena clareira rodeada de árvores e um lago no meio. Para mim, a paisagem perfeita no deserto Alentejano.
Sinto o galopar de Jerónimo a acalmar e deixo que as batidas do meu coração acalmem com o dele.
- Rapaz, rapaz… Obrigada. Digo junto à sua orelha.

No momento em que me viro para olhar melhor a clareira, reparo que, do outro lado, sentado sobre uma pedra grande e lisa estava alguém. Reconheço imediatamente Filipa Suarez. Os nossos olhares fixam-se por instantes. Quis falar-lhe, quis dizer-lhe o quanto sinto a sua falta na minha vida. Quis dizer-lhe que a amo… mas a única reacção que tive foi fugir. Fugir daquele lugar.
Ordenei a Jerónimo que continuasse a cavalgar pelos campos. Senti que os olhos dela seguiam o meu caminho e pela primeira vez, passados muitos anos chorei.
Chorei pela minha cobardia.
Nesse instante, enquanto o vento arrastava as minhas lágrimas, jurei que um dia no futuro lhe ia dizer o quanto a amava. Mas não agora. Não ali.

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