21 de março de 2009

2084

O que a idade nos traz de bom é permitir viver a vida devagar. Tão devagar que não sei exactamente a idade que tenho. Sei que não sou nova. O espelho, também já gasto pelo tempo, reflecte uma imagem que me agrada, embora, não traduza exactamente aquilo que sou. As minhas mãos estão enrugadas. As articulações estão disformes. Há alturas que me doem tanto que não sei o que fazer com elas. Existe uma coisa boa quando me doem. Servem de alarme nos dias em que o tempo muda.

A Sukri fica indignada quando me ouve dizer isto.
« Não percebo como consegues dizer que as dores são uma coisa positiva!» Diz, quase zangada comigo.
Sukri, é velha como eu. Gosto de olhar para ela, quando estamos sentadas nos nossos cadeirões na sala de estar. Umas vezes sou apanhada por ela enquanto a observo. A nossa cumplicidade é tanta que não nos faz diferença sermos apanhadas em delito.

- Estás mesmo velha! Digo-lhe a brincar.
- E tu, oh!?
- Eu também!

Desatamos a rir.
A nossa conversa ainda é leve como noutros tempos. Nos momentos em que consigo olhar para ela, sem que note, vejo que continua bonita. Nunca lhe disse, mas quando a conheci, na nossa adolescência, não a achava nada bonita. Não sei porquê! Talvez porque estivesse destinada a ser a amiga mais amiga da minha vida.
Sukri é portuguesa mas os seus olhos em bico denunciam logo a sua descendência oriental. O cabelo preso em carrapito fazem sobressair as rugas da sua face. Tem um ar respeitável!

Na altura em que o Francisco, seu marido, morreu fiz-lhe a proposta de vivermos juntas. Numa noite em que fiquei em casa dela, porque se sentia só, perguntei-lhe:
- Querida, agora que voltámos a ficar solteiras que tal juntarmos os trapinhos e sermos felizes para sempre?
- Só se me pedires em casamento! Disse ela com uma expressão travessa.
- Queres casar comigo Sukri?
- Velha Jarreta, não tem vergonha nenhuma! Bom, mas mais vale mais tarde que nunca! Diz-me: queres viver na tua ou na minha?
- Estava aqui a pensar... E se no mudássemos para a casa no Alentejo?
- Deixávamos Lisboa?
- Sim.
- Está bem.

A nossa Amizade sempre foi assim, solta. Ambas sabíamos que tinhamos nascido para sermos eternamente amigas. Isso agradava-nos. Nunca nos conseguimos amar de outra maneira. Os filhos e netos ficaram radiantes com o comunicado.
A nossa casa no Alentejo era acolhedora, térrea. Tinha o toque matriarca das duas. A criançada adorava lá estar. Os nossos filhos também. Diziam eles: "Não há pôr do sol mais bonito do que aquele que se vê deste alpendre."
De facto era muito belo!
As divisões não tinham muita tralha (à excepção do guarda vestidos da Sukri. Aquela mulher sempre teve o vício da roupa! Nunca a entendi, mas achava uma certa piada!) não eram despidas. Era um espaço prático e leve.

Numa noite de Inverno em que estávamos sozinhas a saborear o que mais gostávamos, conste-se: os nossos cadeirões (chamados carinhosamente de "o mundo secreto das avós" pelos nossos netos), a lareira acesa, Maria Callas, eu e o meu Wisky e ela o seu chá, Sukri surpreende-me com a seguinte pergunta:

- Estás a pensar nela, não estás?
- Estou. Disse com umas lágrimas traiçoeiras que se soltaram dos meus olhos.
Ela toca-me na mão e sorri para mim com aquele ar tão cúmplice. Até que lhe pergunto:
-Sabes qual é a vantagem disto tudo?
- Qual?
- Conseguir amar a vida tanto como amo a morte. Pois é a viver que ainda consigo sentir o cheiro dela, o toque dela, o sabor dela e é a morrer naturalmente, como manda a vida, que me vou aproximando da minha paz e dela.
- Entendo-te, minha amiga.

Aquele silêncio entre nós, Maria Callas, o calor da lareira, fizeram-me encerrar os olhos e voltar àquele dia longínquo em que conheci Maria Madalena.

«««««

Ela gosta de caminhar pelas ruas de Lisboa. Sozinha.
Ela gosta de percorrer as igrejas de Lisboa. Sozinha.

É assim que me lembro dela.
A primeira vez que nos cruzámos foi num daqueles bancos de calçada que dão para a estrada principal da Avenida da Liberdade. Era uma mulher. Na sua face ainda não se notavam as marcas da vida. Tinha uma beleza própria e um perfume que envolvia os sentidos. Eu estava sentada numa das pontas do banco e ela sentou-se na outra. Olhou para mim e disse: "Olá"
Respondi com a mesma simpatia dos que ainda gostavam de se sentar nos bancos. Fossem eles de jardim ou de calçada.
A sua mão fez empurrar pelo banco um papel com um Mp3 em cima. Fitei-lhe o olhar com uma expressão curiosa ou talvez surpreendida. Ela disse-me: "Ouve e lê."

«Aviso. Não tenho respostas para te dar nem perguntas para te fazer. Gosto de partilhar o meu silêncio e a minha solidão com alguns olhares desconhecidos (ou serão conhecidos?). Gosto do teu e daquilo que ele me transmite. Não quero saber de onde vens nem para onde vais porque neste momento aquilo que vejo és tu. Apenas tu. É aquilo a que chamo "Religare". Fica comigo hoje.
Post Scriptum: Cecilia Bartoli - "Sposa son disprezzata". Não sei o que diz, mas deliciu-me ouvi-la."


Quando terminei de ler aquele breve escrito e ouvido aquela música que pentrou em todos os meus poros, estava literalmente emocionada. Olhei para ela e sentia os meus olhos submersos em lágrimas. Não entendia porquê.
Ela aproximou-se de mim, tocou nas minhas mãos e abraçou-me. Deixei que o seu corpo tocasse no meu sem preconceito, deixei que as minhas lágrimas lhe molhassem a face. O perfume dela estonteava os meus sentidos. A sua pele era suave. Ela afastou-se um pouco e repousou nos meus lábios um beijo leve. Senti o mundo parar. Deixei de pensar.
Caminhámos de mão dada e em silêncio até uma igreja. Não sei o nome. Sei que era pequena, escura, pobre e não tinha ninguém. Entrámos.
Reparei que ela não fez o sinal da cruz nem os seus lábios se moveram para dizer nada. Caminhou pela igreja lentamente como se estivesse no lugar mais sagrado do mundo. Em frente ao altar deixou-se cair com os joelhos nos chão, abriu os braços e inspirou. Eu que a observava do fundo da igreja, caminhei pelo corredor central de frente para a cruz e ajoelhei-me atrás dela, de modo a que os nossos corpos encaixassem um num outro. Ela rodou a cabeça para me ver e beijou-me novamente. Desta vez com intensidade. Eu não tinha a mais pequena ideia de como era bom beijar aquela mulher. Ali sentia a sua total entrega. Sentia a língua dela dentro da minha boca. As minhas mãos tocaram-lhe o ventre firme, os seis hirtos e senti a costas dela irem de encontro ao meu tronco como se uma onda lhe tivesse trespassado e a obrigasse a atravessar o meu corpo. Apertei-a contra mim. Uma das minhas mãos tocou-lhe a vagina. A sua respiração susteve-se e disse-me ao ouvido: "Quero que me penetres!".
Tirou as cuecas, virou-se de frente para mim e sentou-se no meu colo de pernas abertas. Subi-lhe o vestido. Acariciei-lhe o clitóris. A sua boca continuava na minha, beijava o meu rosto, o meu pescoço, respirava junto ao meu ouvido onde gemeu: "Entra agora. Devagar. Sente comigo aquele momento clarividente." Era quente lá dentro, suave, oscilava entre pequenos espasmos que coincidiam com a sua respiração e movimento do seu corpo de encontro ao meu. Senti-a tão molhada. Foi naquele instante que lhe senti o orgasmo e no dela eu senti o meu. Deixei o meu corpo cair para trás. O dela repousou sobre o meu. Sentia-lhe a transpiração, o perfume e a respiração que aos poucos acalmava.
Não tenho ideia de quanto tempo durou. Podiam ter sido cinco minutos, dez minutos, meia hora, uma hora. Não sei.
Ela acariciou a minha face e com os olhos alagados em água sussurou:"Obrigada."
Foi a última coisa que me disse. Beijou-me. Levantou-se e foi embora. Nunca mais a vi. Não tive reacção de ir atrás delas. Ainda hoje não sei porquê!

Passados cerca de 4 meses recebo, na minha caixa de correio, uma carta sem selo que dizia: "Para ti."
O meu coração disparou como se já soubesse que era dela. Abri o envelope a tremer, de tão nervosa e aflita que estava.

"A mim deste-me todas as respostas sem que te tivesse feito uma pergunta. O que tinha pedido ao Universo, ele deu-me, feito presente, num banco da calçada. Soube, assim que vi a alma e a vida nos teus olhos que te amava profundamente. Foi nesse amor que encontrei a minha simplicidade de viver e amar. A vida e a morte passaram a fazer sentido juntas. Perdi todos os meus medos porque finalmente te tinha encontrado.
Se hoje me lês, significa que morri. Naquela tarde eu já sabia que ia morrer, por isso fui embora. Não me condenes por tê-lo feito. Quis que guardasses de mim a recordação de um amor belo, sem dor, sem sofrimento. Livre. Eu sou a tua Julieta num final feliz, porque conseguimos encontrar-nos na eternidade.
Amo-te.

Maria Madalena"

»»»»»


Abri os olhos e molhei os lábios com whisky. Com o olhar preso no lume partilho com Sukri:

- Sabes uma coisa? Passados estes anos todos, creio que a Maria Madalena desceu à terra para me amar. Para amar o meu corpo de mulher.
- As coisas que tu dizes, rapariga! Oxalá o Papa nunca te oiça.


Sorrimos e deixámo-nos ficar ali.


2 comentários:

Amelie disse...

Terias tu cerca de 136 anos, por esta altura... :)
Um beijo com saudade

Anónimo disse...

Como o prometido é de vidro...
...perdão...
...devido, eis-me aqui.

Em primeiro lugar, Sacrilégio...
...dentro de uma igreja?

Bem pelo menos devia lá estar fresquinho...

Brincadeiras à parte, adorei o texto, mesmo. Fluido, sensível, e extraordináriamente bem escrito.
Já gostava de te ler, mas agora...
...mais ainda.

Obrigado por o partilhares comigo.


:)

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