Um dos livros mais enriquecedores que já li...
Neste livro (para comprar, clique), Mia Couto (aqui, mais sobre o autor), conta a seguinte história:
"O Sim do Não
Nas zonas rurais onde trabalho existe uma curiosa maneira de responder às perguntas formuladas por um estranho. Sobretudo se essas questões solicitam a dicotomia do «sim» e do «não». Resolve-se da seguinte maneira: responde-se sempre sim. O «não» simplesmente não se diz.
Esta forma de retórica (ou melhor, esta ausência de retórica) traduz a nossa condição geográfica: somos já o oriente. Não negar é uma educação. Mas esta elegância de trato cria,
por vezes, problemas aos que necessitam de respostas claras e concisas. É o meu caso quando chego a uma zona litoral e necessito de organizar o meu trabalho. À minha pergunta:
- A maré está a subir?
A resposta já aconteceu assim:
-Está a subir, sim senhor, mas já começou a descer à mais de duas horas.
Outras vezes, quando a minha intuição me dá garantias de boletim meteorológico, avanço:
-Amanhã vai chover!
Recebi, por vezes, a seguinte resposta:
- Vai chover, sim senhor, mas a chuva, essa, só vai começar a cair na próxima semana.
Uma outra vez, tendo por missão identificar a fauna numa floresta, perguntei a um velho que me acompanhava:
-Isto que está a cantar é um pássaro? -É sim. -E como se chama este pássaro? - quis eu saber. -Bom, este pássaro, nós aqui em Niassa não chamamos bem-bem pássaro. Chamamos de sapo.
Num balanço da aplicação do lema de governação Por um futuro melhor a Televisão de Moçambique fez um inquérito popular. A pergunta era:
«Sente que a sua vida está a melhorar?» Um cidadão respondeu assim: «Está a melhorar, sim senhor. Mas está a melhorar muito mal.»"
Nas zonas rurais onde trabalho existe uma curiosa maneira de responder às perguntas formuladas por um estranho. Sobretudo se essas questões solicitam a dicotomia do «sim» e do «não». Resolve-se da seguinte maneira: responde-se sempre sim. O «não» simplesmente não se diz.
Esta forma de retórica (ou melhor, esta ausência de retórica) traduz a nossa condição geográfica: somos já o oriente. Não negar é uma educação. Mas esta elegância de trato cria,
por vezes, problemas aos que necessitam de respostas claras e concisas. É o meu caso quando chego a uma zona litoral e necessito de organizar o meu trabalho. À minha pergunta:- A maré está a subir?
A resposta já aconteceu assim:
-Está a subir, sim senhor, mas já começou a descer à mais de duas horas.
Outras vezes, quando a minha intuição me dá garantias de boletim meteorológico, avanço:
-Amanhã vai chover!
Recebi, por vezes, a seguinte resposta:
- Vai chover, sim senhor, mas a chuva, essa, só vai começar a cair na próxima semana.
Uma outra vez, tendo por missão identificar a fauna numa floresta, perguntei a um velho que me acompanhava:
-Isto que está a cantar é um pássaro? -É sim. -E como se chama este pássaro? - quis eu saber. -Bom, este pássaro, nós aqui em Niassa não chamamos bem-bem pássaro. Chamamos de sapo.
Num balanço da aplicação do lema de governação Por um futuro melhor a Televisão de Moçambique fez um inquérito popular. A pergunta era:
«Sente que a sua vida está a melhorar?» Um cidadão respondeu assim: «Está a melhorar, sim senhor. Mas está a melhorar muito mal.»"
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