Em jeito de desabafo dizias-me: "Tenho tido tantos pensamentos suícidas!"
Eu disse-te com um sorriso nervoso nos lábios, também em jeito de desabafo: "Por favor, se o fizeres não deixes o teu corpo em casa para eu o encontrar. Procura uma morte bonita num lugar lindo, onde tenhas a certeza que morres e não ficas apenas ferida."
Os teus olhos soletraram: "Não podes estar boa da cabeça!! Agora a morte é bonita?!"
*
Não acreditei propriamente naquilo que te disse, mas acho que resultou. Acho que te indignaste com o facto da morte poder ser bonita, mesmo perante a tua tristeza, melancolia, angústia, depressão... o belo iria anular todos esses sentimentos "maus" e o belo quer se apreciado e para que isso aconteça tem de se estar vivo.
Quando estou nervosa posso dizer muitos disparates, sabias?
Ainda que ache que podem haver mortes bonitas. Como a Thelma and Louise ou o senhor do mar adentro ou aquela moça da vida secreta das abelhas. Não deixam de ser filmes em que choramos baba e ranho mas sabê-mo-los lá longe.
Agora, se tu te suicidasses?
Não sei que faria... certamente não faria nada. Não haveria nada que pudesse fazer. A vida continuaria e tarde ou cedo a minha morte também chegaria. Sim, eu serei esquecida. Aliás, todos seremos esquecidos. É assim que funciona.
Porém, enquanto eu for viva, e tu decidires seja o que for, garanto-te que não serás esquecida.
A vida não é perfeita e tu sabes disso. Sabes, não sabes? Claro que sabes! Deus abençou-te inteligente.
Ora bem, aproveitar a deixa da vida não ser perfeita e vou dar-me ao luxo de falar-te por puro egoísmo. Não quero que morras, sem te dizer umas quantas coisas. Não quero correr o risco de me assombrares o resto dos meus dias. Porque se for para ires, tem a bondade de seguir a luz. (vai para a luz que aparecer a meio caminho. Regista bem esta informação, ok? Acho que aquilo da luz branca é tudo muito bonito (logo, secante!) e todos querem ir para lá, na vermelha é tudo à grande e à francesa (cansativo, muito cansantivo!) e acho que a lista de espera também é muito extensa. Portanto ali a meio caminho deve ser bom... vai para lá, hã! Não te sei dizer é qual é a cor... mas olha, amanha-te! Lembra-te: NÃO VÁS PARA ONDE VIRES MUITA GENTE! Segue o teu caminho.). A importância que eu te dou está no meu dia-a-dia. Eu sou tua amiga e tu sabes disso! Não queria estar aqui com aquelas tagarelices do costume. No entanto, dei comigo a pensar: quem é que se ia deitar comigo naquele chão quente a olhar para o firmamento e ter conversas sem destino? quem é que ia brigar comigo sem ter medo de me magoar forte e feio, simplesmente porque há verdades que têm de ser ditas? quem é que me ia ensinar a regatear no mercado? quem é que me ia fazer o melhor arroz integral do mundo? já te falei da sopa miso? e da salada prensada de couve roxa? e aquele bolo de bolacha feito com amazake? e quem é que ia deixar sempre a loiça por lavar? ou o tabaco espalhado pela mesa da cozinha? ou os livros e os apontamentos igualmente espalhados pela mesa? e quem é que me ia saltar para cima para eu me socializar mais com o mundo? E a quem é que eu ia dar abraços como os nossos? porque cada pessoa tem a sua propria forma de abraçar.
Não sei. Mas sei de uma coisa. És importante. És minha amiga e eu sou tua amiga. E como eu existem mais umas quantas. Poucas. Mas existem.
Não sejas presunçosa ao achar que os teus problemas são únicos. Que o tempo pode curá-los e que tu podes curá-los sozinha. Sim, eu sei! É verdade que podes (e deves!) tentar curar-te sozinha, mas há alturas em que devemos ser humildes e crentes em quem nos pode ajudar. A vida é muito mais fácil, quando não estamos armados em rambos que andam às aranhas na selva!
Vive. Quem sabe, esta não será a última oportunidade?
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