Era escusado. - dizia eu.
Pois era. - respondeu ela.
Era mesmo! - Continuou... - Que Merda! Mas afinal o que é que tinhas na cabeça? Aliás, onde é que estavas com a cabeça? - perguntou de olhos fixos nos meus à espera de uma resposta que eu não sabia dar.
...
Baixei os olhos e nem um som consegui emitir. Engoli em seco a vergonha, a culpa, o medo como se fosse areia do deserto a passar-me pela garganta. Nunca tinha sentido arrependimento na vida pois sempre acreditei na (agora - leviandade da) teoria de que as coisas acontecem porque têm de acontecer. Continuo a acreditar que as coisas acontecem porque têm de acontecer mas não com a mesma facilidade, com a mesma leviandade e irresponsabilidade, insensibilidade qualquer palavra terminada em "idade". Porque o tempo não escolhe a "idade" para sermos confrontados com o enorme buraco negro entre a prática e a teoria.
Antes assim.
...
- Eu não tenho pressa. Tu tens? - perguntei.
O olhar apático e perdido dela consumia-me as vísceras, secava-me por dentro de tanto chorar, de tanto ranho que aparecia. Percebi que aquela coisa dos filmes, que antes julgava exagerada, pode realmente acontecer! Ranho e lágrimas é coisa que não acaba e aparece assim do nada, de repente, num descontrolo total!
O silêncio continua profundo no olhar dela. Não tenho como chegar lá. Gelou, enrijeceu! Aquele sorriso maravilhoso desapareceu... Desapareceu!!!
...
- Tens medo? - perguntei.
- Fazes sempre tantas perguntas? Só sabes fazer perguntas agora é? - Atacou-me com as palavras. - Óbvio que tenho medo! Tenho tanto medo que não te passa!! Não podias ter feito o que fizeste! Não podias, pá! Que merda!! - disse-me com aquela voz desesperada e enraivecida, como se lhe tivessem roubado parte da vida.
...
Eu não tenho pressa. Tenho medo. Eu também tenho medo. Medo que já não me consigas encontrar dentro de ti.
Mas... Estou no lugar onde me deixaste da última vez que me viste. Onde me perdeste... Demora o tempo que quiseres. Eu vou estar aqui a fazer umas coisas. Vou distrair-me da tua ausência. Eu mantenho as coisas organizadas, limpas, arejadas. Sabes como sou obcecada com essas coisas! Vou manter-me bonita, arranjada e descontraída. Vou continuar a fazer exercício, a cozinhar aquelas comidas (viste! disse comida, não disse comer!), a comprar o Lambrusco.
Quando chegares num fim de tarde ou numa manhã, ou de madrugada ou quando quiseres... eu improviso a situação, repara:
De manhã: preparo o pequeno-almoço. Aqueles pequenos almoços, sabes? Esses mesmo. As janelas vão estar abertas. Vai cheirar a café, a sumo de laranja natural e a torradas. A fruta vai estar em cima da mesa. Maçãs. Podem ser maçãs. Ou uvas. Sem caroços. E tu sem dares por isso, vais colocar as chávenas e as facas, as colheres, as compotas em cima da mesa. (eu não me esqueci do copo de leite frio, acabado de sair do frigorífico. Por isso não bebes o sumo de laranja natural!)
Hora de almoço: provavelmente apanhas-me a estender a roupa. Roupa branca a cheirar a lavado. Enquanto o almoço se faz em lume brando. Portanto vai cheirar bem. Sirvo-te um aperitivo. Martini Gold. E tu sem dares por isso vais colocar música. Tenho gelado de baunilha para a sobremesa.
Meio da tarde: das duas uma, ou estou em modo de siesta ou a ler alguma coisa... Que queres para o lanche? Podia convidar-te para uma esplanada à beira mar. Imperiais e tremoços e uns petiscos até ao pôr do sol! Sem marisco!
Jantar: aqui é surpresa!
Madrugada: Toca bastantes vezes à campainha e telefona-me até eu acordar!!! Não desistas!! Manda pedras. O que quiseres! Vou acordar com aquele ar de sono como convém a quem dorme! Mas de certeza que no momento exacto em que perceber que és tu fico nova e fresca como uma folha de alface! Preparo umas panquecas e chá ou um copo de leito frio. acabado de sair do frigorífico. Eu bebo chá.
A única coisa em comum em cada um destes momentos é: Vais sempre comer! e que podemos ficar a conversar ou em silêncio até quando nos apetecer.
Podes ficar ou ir embora. e voltares quando quiseres...
Pode ser tudo isto e nada disto! Este é apenas um dos muitos improvisos.
Não tenho pressa.
...
Já disse que não tenho pressa? Não tenho.
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