26 de outubro de 2008

Cheiro de Vinho II



Antes de lerem este post, sugiro que leiam Cheiro de Vinho I
O meu nome é Maria Inês Luís. Todos me tratam por Luís. Poucos sabem que este é o meu apelido e não o meu nome próprio. Menos são aqueles que se apercebem que sou uma mulher e não um homem. Para mim não se trata de um segredo. Ao longo dos anos, por uma questão de sobrevivência, fui ganhando características masculinas. Não tenho espelhos para me ver, mas nos riachos onde paro para me lavar, inevitavelmente vejo o meu reflexo na água. Tenho traços que denunciam o meu género. Basta olhar com atenção.
O Amor que sinto pelos Cavalos e pela Natureza tornou-me um dos secretos Mensageiros do Rei.
Na minha memória tenho todas as missões que me foram incumbidas. Desde o destinatário à maioria dos pormenores das viagens em si.
No entanto, há uma que, ainda hoje, volvidos mais de dois anos gosto de recordar. Especialmente quando faço missões sob chuvas torrenciais como hoje. Felizmente terminei, com sucesso, a entrega de mais uma mensagem. Estou no palácio do Duque de Évora. Descanso. Amanhã parto antes de o sol nascer.
Por hora, penso em Filipa Suarez. A Mulher Cortesã. A Amante exclusiva do Rei.
Penso nela por duas únicas razões. A primeira é por saber que o seu palácio é o terceiro, seguindo pelo caminho principal a partir daqui. O que demoraria cerca de, mais ou menos, uma hora e meia a chegar. A segunda razão prende-se ao facto de, amiúde, sentir o seu cheiro. Sei que é normal. Foi a única pessoa que desejei física e emocionalmente.
Recordo-a altiva, distante mas educada, segura, sedutora, confiante. Características que, mais tarde, percebi, não passavam de uma máscara que escondia um ser doce que precisava urgentemente de ser amado.


***

A cozinha era quente por causa do fogão a lenha. D. Lúcia, a cozinheira mais simpática e genuína que alguma vez conheci, tinha acabado de me servir um pedaço de uma peça de caça que tinha feito nessa tarde. Devo confessar que aquela refeição me alimentou a alma e não o corpo. Sensação que parecia prever essa noite.
“Muito obrigada D. Lúcia. É muito amável! Se quiser pode ir descansar. Aposto que hoje teve um dia de trabalho daqueles! Fique tranquila que eu quero só comer e depois também vou dormir pois amanhã tenciono partir bem cedo.”
“De certeza Sr. Luís? Agradeço-lhe muito. Vou sim, vou sim… que as minhas pernas já não são o que eram, sabe? Tenha uma boa noite e durma bem.”
“Obrigada. Bons sonhos. Até amanhã.”
“Obrigada, meu filho.”
A forma maternal com que D. Lúcia me acolheu reflecte bem o tipo de pessoa que ela era. Espero que ainda seja!
Enquanto alimentava a alma e o corpo eis que surgiu à porta Filipa Suarez. Levantei-me. Cumprimentei-a com um “Senhora” e pouco mais tive oportunidade de dizer porque fui imediatamente interrompida pelas suas perguntas. Respondi-lhe naturalmente, com a verdade que me era natural. Havia despertado a sua atenção por uma razão qualquer que desconhecia, pois o seu comportamento adquiria contornos algo sedutores e manipuladores.
Insistiu que ficasse a acompanhá-la no chá que entretanto tinha preparado a fim de lhe contar o porquê do meu cargo. Foi o que fiz.
Numa conversa que se criou leve e fluida, ela perguntou:
“Luís… é o seu nome verdadeiro?”
Foi a primeira vez que alguém quis saber tal coisa. Ela reparou na expressão da minha cara e reforçou: “É?”
“É.” Respondi.
“Curioso.”
Sorri e acrescentei: “É o meu nome de família. Chamo-me Maria Inês. Maria Inês Luís.”
Os seus lábios desenhavam um pequeno sorriso. Nesse momento ela convidou-me de uma forma muito cordial e discreta a subir aos seus aposentos. O seu olhar revelou propositadamente o que queria de mim. Achei uma certa graça aquele jogo de sedução e deixei-me levar pela sua sensualidade.
Segui-a até ao quarto. Orientou-me no seu espaço enquanto me servia um copo de vinho.
Não demorou muito tempo até que eu a agarrasse nos meus braços.
Eu desejava a sua boca. Eu desejava o seu corpo todo. Queria despi-la. Tirar-lhe a roupa e com ela arrancar-lhe todas aquelas máscaras que a cobriam. Acreditei que então encontraria uma mulher e não uma imagem criada que usava para se defender e vingar no meio da Nobreza. Não me enganei. As linhas arredondas, incrivelmente femininas do seu corpo buscavam o meu. As suas mãos aflitas pediam para serem guiadas pelo meu corpo. Sentia que desconhecia esta sexualidade, o que a tornava indefesa mas não destemida. A sua boca, a sua língua quente penetravam a minha boca. A vagina dela procurava a minha e no momento em que elas se tocavam o corpo dela estremecia dentro do meu. E naquele pulsar de desejo, de entendimento, de cumplicidade, ela disse uma palavra que eu desconhecia: “Amo-te”.
Na manhã seguinte parti.


***

Hoje, desta janela, consigo dizer que ela foi o ser que mais me encantou. Ela foi quem me conseguiu mostrar dois tipos de beleza. A beleza cínica e a beleza naturalmente feminina. De qual gosto mais? Filipa Suarez não existe sem as duas. Por causa delas, foi capaz de, em certos momentos, ler a minha alma. Desafiou o possível e o impossível.
Se lhe sinto a falta? Muito. Por tudo isto e pouco mais que isto.
Amanhã aguarda-me uma viagem longa. Quero descansar.

2 comentários:

M.A. disse...

Olá!
Gosto...
quem és?
***

Condessa X disse...

Constróis um delicioso puzzle.
Uma peça muito bem escrita numa linguagem pouco explorada.
Anseio pelos desenvolvimentos da embriaguez literária! ;-)
Abraço,

Condessa X

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