16 de outubro de 2008

Cheiro de Vinho.

Pinturas de Pierre Auguste Renoir

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Tinha consciência da minha condição. Sabia-me uma das mulheres mais privilegiadas e influentes da corte. Era respeitada e desejada por maior parte dos homens. O perfume, o mistério, a inteligência, a perspicácia, o atrevimento, a cordialidade, a diplomacia e inevitavelmente a beleza, fascinavam maior parte dos presentes que me rodeavam. Fossem eles pobres ou ricos. Homens ou mulheres. Crianças ou velhos.
Sou uma Cortesã.
Mas esta noite, sentada no meu cadeirão da varanda, enquanto fumo o cigarro pensativo e saboreio o vinho, deixo que a minha mente ressuscite memórias longínquas. Sinto, novamente, no meu corpo, aquele turbilhão de sentimentos e sensações. Confesso que isso me deixa aflita. Sei que aquelas são as únicas lembranças capazes de me fragilizar. Ainda assim, deixo-me levar pelo pensamento, para aquela tarde e noite de inverno.


*

Chovia torrencialmente. Estava a anoitecer e sentia o frio aumentar.
Aguardava, impaciente, uma mensagem do Meu Senhor a informar se precisava ou não da minha companhia nessa noite. Sabia do perigo que corria, se tivesse de sair àquela hora.
Nisto ouvi um cavalo chegar. Desci as escadas apressada e eu própria abri a porta ao mensageiro.
“Boa noite Senhora. Desculpai a demora.” Baixando a cabeça ao falar.
Depressa, arranquei o envelope das mãos do mensageiro, sem lhe prestar atenção alguma e subi para os meus aposentos a fim de ler a carta. Felizmente, a minha presença não era necessária nessa noite. Respirei fundo e sentei-me na cama. Reparei que continuava a chover. A lareira acesa emanava um calor que aumentava o meu alívio por não ter de sair naquela noite.
Apeteceu-me um chá, que eu própria fiz questão de preparar. Desci até à cozinha e qual não foi o meu espanto ao encontrar uma mulher sentada à mesa. Uma mulher que nunca tinha visto.
-“Senhora.” Levantou-se muito rápido, também surpreendida com a minha presença ali. Geralmente só os empregados andavam naquelas divisões da casa.
-“Quem sois? O que fazeis aqui?”
-“Sou o mensageiro”.
-“ A mensageira quereis dizer.”
-“Sim, precisamente. Precisa de algo Senhora?” Pergunta ela.
-“Sim. Preciso que me acompanhe no meu chá. Estou curiosa por saber como lhe foi dada esta missão. Quero que me conte. Sentai-vos, por favor!”
Ela sorriu.

Era uma mulher de traços bonitos. Os seus cabelos eram pretos, curtos, despenteados. Tinha uns olhos pretos, rasgados e muito expressivos. O tom de pele era de quem passava muitas horas ao sol. Era de uma beleza que eu nunca tinha visto. Uma beleza selvagem. Uma beleza animal.
Começou a contar-me a sua história à medida que eu lhe ia fazendo as perguntas. Era inteligente a responder. Sabia conversar. Mas o que me intrigou verdadeiramente foi a sua forma envolvente de absorver a minha atenção.


*


Não me lembro de quanto tempo conversámos, mas sei que essa noite foi a mais sensual, erótica, orgásmica da minha vida.


*


Depois de me acompanhar no chá sugeri-lhe que continuássemos a conversa no meu quarto, onde, certamente, estaríamos mais confortáveis. Concordou. Creio que interpretou como uma ordem.
A lareira continuava acesa. As velas também. A Chuva batia nos vidros da janela o que provocava sensações ambíguas de beleza e medo.
Ela mantinha-se distante, numa postura meio desconfortável, por estar no meu quarto. Achei interessante o seu comportamento. Conduzi-a a sentar-se numa cadeira junto à lareira. Mais uma vez parece que acata uma ordem. Servi-lhe um cálice de vinho e sentei-me na cadeira à sua frente. Os nossos olhares sustiveram-se um no outro e deixamos que aquele silêncio gritante de sedução nos envolvesse a ambas. Creio que o seu instinto reagiu primeiro que o meu. Ela avançou na minha direcção e sentou-se junto às minhas pernas. Procurou as minhas mãos e beijou-as. Senti-lhe os lábios tépidos, húmidos que causavam um arrepio em toda a superfície do meu corpo. Olhou para mim e as suas mãos ousaram puxar o meu rosto para junto do dela. Pela primeira vez senti-me despida de defesas, do meu auto-controle e do controle que sempre exerci sobre os demais. Não resisti à sua investida. Ela agarrou nos meus braços com segurança e levantou-me de encontro ao seu corpo, enquanto me beijava a boca. Despiu a minha roupa com uma habilidade tal, que quase parecia estar nua desde sempre. Levou-me para a cama. Ajudei-a a tirar a sua roupa de homem. Bebi a beleza do seu corpo. Senti-lhe uma beleza feminina que vibrava através da força da sua masculinidade. Queria que possuísse o meu corpo. Que beijasse cada bocadinho dele. Fê-lo sem que eu lhe dissesse como. Naquele momento era ela quem me guiava. Que guiava as minhas mãos no seu corpo. Procurei o seu sexo. Queria senti-lo todo em mim. Não queria que parasse nunca. Queria que ficasse eternamente em mim.

Na manhã seguinte partiu.

*


Se alguma vez amei alguém? Ela foi o ser que mais amei nesta vida. Pela profundidade do seu olhar, pela força do seu corpo, pela feminilidade dos seus movimentos, pelo seu cheiro selvagem de liberdade, pela cumplicidade das suas palavras.
Nestes dias, de solidão, desejo que volte para mim. Que me ame, que me seduza e que no final devolva a minha força, a minha independência dos seres eternamente apaixonados.
Até que esse dia chegue, continuo cortesã. E gosto.

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