- Imagina se as coisas fossem assim? “My first… My last… My everthing!” Na vida é tudo uma questão de charme, de presença, de saber estar… Elogia “a outra”, num tom vaidoso.
“Uma delas” ri, daquele ar tão característico da “outra”.
- Já não tens emenda. Ainda não percebi se és convencida para te convenceres de alguma coisa ou se tens mesmo consciência daquilo que és…Mas permite-me discordar de ti. Nem tudo é uma questão de charme, de presença, de saber estar, mas sim de… escolha.
Disse “uma delas” sem muita certeza.
- Não pareces muito convicta do que dizes, pois não?
- Não. Talvez existam outras questões na vida que ainda não tomei em consideração. Enfim…
- Que foi? Notei um certo distanciamento na tua voz…
- Não foi nada.
“A outra” manteve o silêncio mas com aquela expressão de mulher perspicaz que não compreende um “Não foi nada”. Decidiu mudar de conversa.
- Sabes uma coisa?
- Sei algumas mas não me incomoda saber mais umas quantas. Conta.
- Tenho tido uma vontade estranha de ser mãe.
- Ah sim? Que giro! Nunca foi um instinto que manifestasses muito… aliás, sempre afirmaste que isso estaria fora dos teus planos. Ainda te ouço dizer: “Imagino-me tia. A tia preferida. Chegar a casa do meu irmão e ter uma catrefada de gaiatos a correr para as minhas pernas. Brincar com eles e no fim do dia vir embora, (des) cansada e em silêncio.”
- É verdade. Continuo a ver-me assim… mas não sei… há alguma coisa a despertar…
- E como é que pensas resolver esse assunto?
- Não penso. Não há nada para resolver. De momento não existe espaço para uma criança. Quer por questões evidentes (refere-se “a outra” à falta de homem, e ao gosto especial pelas mulheres), quer por questões materiais e emocionais.
- Hum. Responde-me uma coisa. O que é que tem mais importância para ti? Não teres um homem para te fazer um filho ou sentires que tens medo de ser mãe?
- Eu não tenho medo de ser mãe! Diz “a outra”, indignada. Eu gosto de preferencialmente de mulheres, lembraste?
- Quer dizer então, que não teres filhos está directamente ligado ao facto de gostares de mulheres, é isso?
- Não… Não é por gostar de mulheres que estou impedida de ter filhos. Vivemos no século XXI e já existem técnicas avançadíssimas para engravidar sem precisar de um homem. Diz a “outra” na defensiva.
- É verdade. Vejo que estás muito bem informada… E isso é assim tão simples quanto parece?
- O quê? A inseminação artificial? Se tiveres uma carteira recheada, se fores fértil e quiseres muito, não tenhas dúvida que é!
- Não me estava a referir a isso mas à forma como tu encaras o teu ideal de gerares um filho dentro de ti…
- Que estás a insinuar? Que é mais importante para mim fazê-lo com um homem do que através da inseminação?!
- Sim.
- Não sejas tonta! Já te passou pela cabeça a quantidade de mulheres que não conseguem engravidar dos maridos e recorrem à inseminação?
- Argumento interessante esse… mas não estou a falar dessas mulheres, mas sim de ti.
- Às vezes cansas-me.
Sopra irritada "a outra". Mexe-se para demonstrar o seu desconforto. E continua:
- Sim, é verdade! Seria perfeito se me apaixonasse por homem e com ele tivesse filhos e fosse feliz para sempre, como nos contos de fadas. Seria tudo muito mais fácil…
- Mas como não é? (pergunta retórica)
- Mas como não é… rendo-me à minha condição de solteira bissexual.
- E sem filhos! Acrescenta, brincando “Uma delas”.
- Sim. E sem filhos…
Riem as duas da conversa que acabaram de ter.Quando acalmam do momento de riso, “uma delas”, pacientemente, diz:
- Gosto da forma como te esquivas às perguntas que de facto importam…
- Eu sei. Mas não me apetece responder agora.
- Então quando?
- Não sei… Um dia destes… Podemos ficar um pouco em silêncio agora?
- Claro.
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