- Em que pensas?
Silêncio.
- Estava a observar-te….
- Ah sim? E que observas tu? Estou com alguma remela no canto do olho? – Diz a “outra” com um ar gozão.
- Nunca resistes a uma piada, pois não?
- É mais forte que eu… Além disso, estás com um ar sério e não gosto quando ficas assim!
- Eu não estou com um ar sério! É o meu ar de sempre…
- Hum, hum… deixa-te de conversas e diz lá o que observavas tu?
- Estava a pensar aí nessa cicatriz que tens junto ao peito… Nunca tinha reparado nela.
A outra apressa-se a escondê-la e a sua expressão facial gela.“Uma delas”, num tom seguro diz:
- Não precisas de escondê-la. Estamos só aqui as duas.
- Não gosto dela. Não gosto que esteja aqui.
- Porquê?
Irritada a “outra”, eleva a voz:
- Pára com isso! Porquê, porquê? Tens de saber tudo? Tens de entender tudo? Enervas-me quando tentas perceber e cuidar de mim!
- Eu sei. Mas eu não consigo viver sem ti e tu não consegues viver sem mim. Por isso vou continuar a cuidar de ti… a observar-te de perto… a dar-te de tempo e espaço para seres. Simplesmente!
- Que merda de conversa é esta? Agora é que te tinha de dar para isto? És uma atrofiada e nem sei porque é que te dou ouvidos…
- Eu sei.
- Uau! Então diz lá porquê!
- Tu sabes a resposta, porque é que estás a pedir que diga?
- Sabes que mais? Não tenho paciência para ti! Não tenho mesmo! Vais dizer o quê? Que é porque não podemos viver uma sem a outra? Diz “a outra” com um ar de desdém.
“Uma delas” mantém o silêncio e fixa-a com um olhar curioso.
“A outra” cede.
“A outra” cede.
- Desculpa. Isto tem sido difícil para mim. Importaste de me deixar um pouco?
- Não. Claro que não me importo.
“Uma delas”, aproxima-se da “outra” pelas costas, envolve-a num abraço presente, toca na cicatriz com uma das mãos e segura a contracção do corpo da “outra”. Inspiram e Expiram as duas ao mesmo tempo. “Uma delas” retira-se.
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