Raúl Suarez. Meu pai. Dele tenho memórias desconexas. Fugazes.
Filipa. Minha mãe. Faleceu após o meu parto. Dela herdei o nome.
A primeira lembrança que tenho ronda os meus 4 anos. Fui deixada num convento de freiras em Évora. Desse dia recordo o chão de terra batida. O som dos sapatos gastos do meu pai. A sua mão forte a segurar a minha. E a única palavra que ele me disse antes de me deixar foi: “Filha…”. Ao dizer isto ajoelhou-se à minha frente e segurou as minhas mãos dentro das dele. Olhou para mim e sorriu. O o
lhar dele direccionou-se algures acima do meu ombro. No cimo de umas pequenas escadas, atrás de nós, estava a Irmã Matilde. Os meus olhos acompanharam os dele. Levou-me até ela e juntou as minhas mãos às dela e disse qualquer coisa de que eu não me lembro. Recordo uma tranquilidade estranha desse momento. Talvez um presságio. E ali fiquei de mão dada com a irmã Matilde a ver o meu pai partir para sempre. Nunca soube porque me tinha abandonado num convento. Mas, por um lado, ainda bem que o fez!
Na altura em que conheci a irmã Matilde ela deveria ter uns 15 anos. Não tinha ido para o convento por convicção mas sim por imposição de seu pai. Não era uma mulher bonita mas tinha uns jeitos doces. De algum modo eu era a sua protegida. Era ela quem tratava de mim, depois das sovas que levava da irmã Julieta. Não foram poucas. Porém, graças à irmã Julieta, hoje, controlo a minha dor em silêncio e com um sorriso cinicamente seguro nos lábios.
Cedo perceberam que eu nunca seria freira nem nada do que elas queriam. O meu entusiasmo pela vida era outro e muito autêntico. A irmã Matilde costumava dizer: “Filipa Suarez, tu és uma força da natureza”. Ao ouvir isto, mesmo sem perceber o que aquelas palavras significavam, começava a imitar as Senhoras que se passeavam altivas pelo Paço de Évora.
Vivi no convento até aos meus 15 anos. Altura em que decidi fugir. Porque quis muito e porque fui desafiada.
Nesse mesmo dia conheci Luísa Boaventura.
Filipa. Minha mãe. Faleceu após o meu parto. Dela herdei o nome.
A primeira lembrança que tenho ronda os meus 4 anos. Fui deixada num convento de freiras em Évora. Desse dia recordo o chão de terra batida. O som dos sapatos gastos do meu pai. A sua mão forte a segurar a minha. E a única palavra que ele me disse antes de me deixar foi: “Filha…”. Ao dizer isto ajoelhou-se à minha frente e segurou as minhas mãos dentro das dele. Olhou para mim e sorriu. O o
lhar dele direccionou-se algures acima do meu ombro. No cimo de umas pequenas escadas, atrás de nós, estava a Irmã Matilde. Os meus olhos acompanharam os dele. Levou-me até ela e juntou as minhas mãos às dela e disse qualquer coisa de que eu não me lembro. Recordo uma tranquilidade estranha desse momento. Talvez um presságio. E ali fiquei de mão dada com a irmã Matilde a ver o meu pai partir para sempre. Nunca soube porque me tinha abandonado num convento. Mas, por um lado, ainda bem que o fez!Na altura em que conheci a irmã Matilde ela deveria ter uns 15 anos. Não tinha ido para o convento por convicção mas sim por imposição de seu pai. Não era uma mulher bonita mas tinha uns jeitos doces. De algum modo eu era a sua protegida. Era ela quem tratava de mim, depois das sovas que levava da irmã Julieta. Não foram poucas. Porém, graças à irmã Julieta, hoje, controlo a minha dor em silêncio e com um sorriso cinicamente seguro nos lábios.
Cedo perceberam que eu nunca seria freira nem nada do que elas queriam. O meu entusiasmo pela vida era outro e muito autêntico. A irmã Matilde costumava dizer: “Filipa Suarez, tu és uma força da natureza”. Ao ouvir isto, mesmo sem perceber o que aquelas palavras significavam, começava a imitar as Senhoras que se passeavam altivas pelo Paço de Évora.
Vivi no convento até aos meus 15 anos. Altura em que decidi fugir. Porque quis muito e porque fui desafiada.
Nesse mesmo dia conheci Luísa Boaventura.
***
A irmã Julieta mandou-me ir chamar o Padre Carlos. Era um padre muito castiço. Mas passava as tardes na taberna da Rua Palmira. Gostava de um bom copinho de vinho tinto. Foi a partir dessa altura que comecei a acreditar que a crença que espalhavam sobre o vinho ser o sangue de Cristo, servia apenas para enaltecer aquele néctar de características tão boas. Algo tã
o bom tinha de ser sempre parte do divino.
Para chegar à Rua Palmira, inevitavelmente tinha de passar pelo Paço de Évora. Era o momento do trajecto que eu mais gostava de fazer. Lá a vida tinha um encanto diferente. As pessoas liam em bancos que se dispunham entre canteiros de flores. Tinham vestes belíssimas que prendiam a minha atenção em cada pormenor.
À sombra de uma árvore, num desses bancos de jardim, estava sentada Luísa Boaventura com um livro na mão. Uma mulher de pele muito branca, com feições fortes no rosto, que mesmo assim lhe davam um ar extremamente agradável! Era belíssima não pelo seu aspecto, mas pela sua postura. Inspirava sabedoria. Acho que por momentos os meus pensamentos foram tão fortes que ela sentiu que estava a ser observada. Naquele reconhecimento de olhares, ela tomou a atitude que eu menos esperava e que secretamente mais desejava. Chamou-me. Durante duas horas ficámos à conversa. Provavelmente fiquei mais tempo a ouvir do que a falar. Luísa tinha uma eloquência hipnotizante. Falou-me de literatura. Falou-me da escrita. Falou-me da música. Falou-me da dança. Falou-me do acto de saber falar e estar. Falou-me do acto de saber sorrir e no fim… falou-me dos homens. Os homens…
Ainda hoje me recordo das palavras de Luísa: “Filipa, entenderás ao longo dos tempos, que conseguirás fazer deles aquilo que bem entenderes. Encontrarás homens de todas as formas, géneros e feitios. Com todos eles aprenderás alguma coisa se a tua inteligência te servir de alguma coisa. Podes ter e ser tudo aquilo que quiseres. E sabes porquê? Porque o teu sorriso e o teu olhar conquistam…” Neste momento houve uma pausa na voz de Luísa e a sua cara ganha formas de quem teve uma ideia brilhante. Foi quando me disse: “Vem comigo. Farei de ti a mulher mais importante da corte.”
A forma como ela o disse não me deixou pensar duas vezes. Disse-lhe imediatamente que sim.
“Muito bem, Filipa Suarez. Esta noite, vem ter comigo ao palácio do Duque de Évora.”
“Lá estarei, Senhora Luísa”. Respondi eu, convicta da decisão que tinha acabado de tomar.
“O meu nome é Luísa e não Senhora Luísa. Senhora está no céu, minha querida!”
Sorri-lhe em jeito de agradecimento e despedi-me. Ainda tinha de ir chamar o Padre Carlos e preparar a minha fuga do convento. Não queria ir embora sem escrever um bilhete à irmã Matilde a agradecer tudo o que tinha feito por mim.
Quando a noite cai e os corredores estão em silêncio, saiu do quarto, com a camisa de noite vestida e um casaco por baixo dela, enrolado ao meu corpo, para que não se notasse caso alguém me visse. O quarto da irmã Matilde fica perto da cozinha e foi lá que deixei o bilhete. A porta da cozinha que dá para o exterior fica sempre aberta durante a noite. Minutos mais tarde percebi porquê. Ao sair a única coisa que senti foi um arrepio de frio. Os dias começavam a arrefecer. O Outono já dava mostras de si. Nisto ouvi duas vozes que sussurravam. Baixo-me junto as umas floreiras e tento adaptar os meus olhos à escuridão para tentar distinguir quem ali estava. Reparo em duas mulheres. Duas mulheres que se abraçavam suavemente. Beijavam-se na boca e em determinado movimento das suas caras, reconheci a irmã Matilde e a Julinha, que todos os dias vinha ajudar no convento naquilo que fosse necessário.
Mas eu tinha de ir. Luísa Boaventura já devia estar à minha espera.
Para chegar à Rua Palmira, inevitavelmente tinha de passar pelo Paço de Évora. Era o momento do trajecto que eu mais gostava de fazer. Lá a vida tinha um encanto diferente. As pessoas liam em bancos que se dispunham entre canteiros de flores. Tinham vestes belíssimas que prendiam a minha atenção em cada pormenor.
À sombra de uma árvore, num desses bancos de jardim, estava sentada Luísa Boaventura com um livro na mão. Uma mulher de pele muito branca, com feições fortes no rosto, que mesmo assim lhe davam um ar extremamente agradável! Era belíssima não pelo seu aspecto, mas pela sua postura. Inspirava sabedoria. Acho que por momentos os meus pensamentos foram tão fortes que ela sentiu que estava a ser observada. Naquele reconhecimento de olhares, ela tomou a atitude que eu menos esperava e que secretamente mais desejava. Chamou-me. Durante duas horas ficámos à conversa. Provavelmente fiquei mais tempo a ouvir do que a falar. Luísa tinha uma eloquência hipnotizante. Falou-me de literatura. Falou-me da escrita. Falou-me da música. Falou-me da dança. Falou-me do acto de saber falar e estar. Falou-me do acto de saber sorrir e no fim… falou-me dos homens. Os homens…
Ainda hoje me recordo das palavras de Luísa: “Filipa, entenderás ao longo dos tempos, que conseguirás fazer deles aquilo que bem entenderes. Encontrarás homens de todas as formas, géneros e feitios. Com todos eles aprenderás alguma coisa se a tua inteligência te servir de alguma coisa. Podes ter e ser tudo aquilo que quiseres. E sabes porquê? Porque o teu sorriso e o teu olhar conquistam…” Neste momento houve uma pausa na voz de Luísa e a sua cara ganha formas de quem teve uma ideia brilhante. Foi quando me disse: “Vem comigo. Farei de ti a mulher mais importante da corte.”
A forma como ela o disse não me deixou pensar duas vezes. Disse-lhe imediatamente que sim.
“Muito bem, Filipa Suarez. Esta noite, vem ter comigo ao palácio do Duque de Évora.”
“Lá estarei, Senhora Luísa”. Respondi eu, convicta da decisão que tinha acabado de tomar.
“O meu nome é Luísa e não Senhora Luísa. Senhora está no céu, minha querida!”
Sorri-lhe em jeito de agradecimento e despedi-me. Ainda tinha de ir chamar o Padre Carlos e preparar a minha fuga do convento. Não queria ir embora sem escrever um bilhete à irmã Matilde a agradecer tudo o que tinha feito por mim.
Quando a noite cai e os corredores estão em silêncio, saiu do quarto, com a camisa de noite vestida e um casaco por baixo dela, enrolado ao meu corpo, para que não se notasse caso alguém me visse. O quarto da irmã Matilde fica perto da cozinha e foi lá que deixei o bilhete. A porta da cozinha que dá para o exterior fica sempre aberta durante a noite. Minutos mais tarde percebi porquê. Ao sair a única coisa que senti foi um arrepio de frio. Os dias começavam a arrefecer. O Outono já dava mostras de si. Nisto ouvi duas vozes que sussurravam. Baixo-me junto as umas floreiras e tento adaptar os meus olhos à escuridão para tentar distinguir quem ali estava. Reparo em duas mulheres. Duas mulheres que se abraçavam suavemente. Beijavam-se na boca e em determinado movimento das suas caras, reconheci a irmã Matilde e a Julinha, que todos os dias vinha ajudar no convento naquilo que fosse necessário.
Mas eu tinha de ir. Luísa Boaventura já devia estar à minha espera.
***
Quando recordo este episódio nunca penso nele com repulsa, nem mesmo na altura em que vi. Creio que até fiquei feliz por saber que a minha protectora tinha encontrado uma forma de amor. Hoje, depois de conhecer Maria Inês, entendo a intensidade daquele amor proibido e feminino. Contudo, o que eu mais desejava naquele tempo era ganhar o mundo. Conquistar os homens.
(Quanto à figura, não lhe encontrei autor. Caso alguém saiba de quem é, tenha a bondade de me informar, para que eu possa fazer uma conexão. Obrigada.)
1 comentário:
As deliciosas pinturas são de Lempicka. Tâmara de Lempicka! Leia a biografia dela, acho que vai gostar. ;-)
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